terça-feira, 3 de dezembro de 2013

um redescobrir.

as luzes da árvore de natal eram a única claridade da sala. a escada de madeira era vulto. a cadeira de balanço da senhora-quase-sem-memória era vulto. as plantas e pedregulhos do jardim de inverno eram vulto. a guirlanda colorida era vulto. o cachorro era vulto. a vida era vulto. e o garoto chorou. o breu lhe elucidou o quanto o tempo passava numa velocidade morosamente incalculável. era quase uma coisa sólida, de tão pesada e imprevisível. ele tinha mundos demais para viver. alguns deles mortos. outros doentes. milhares de outros feitos de expectativa e sonho. afora o seu, notadamente fragilizado. desde sempre. para sempre (?). estava ele ali, sem subterfúgios. nu de alma. também de corpo. sentia o frio do chão como o do vento corrente lá fora. corrente e cortante. no corpo e na alma. estava ele ali por não enxergar saída da escuridão. da solidez dos dias. da vagarosidade dos ponteiros. queria desistir. de tudo. até o rompante do recomeçar. conheceu o escuro como quem visitou a si. viu na solidão um redescobrir.

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