terça-feira, 22 de novembro de 2011

A garota-vocativo.

Sorriso fácil,
abraço sincero,
olhar confortante
e alma transparente.

Chega mansa, quase silenciosa.
E tem jeito de moleca.
Quando dá por si, ocupou vazios.

No pé, joanetes.
No rosto, bochechas rosadas sempre prontas para gargalhar.
No pé do ouvido, a felicidade cantando.
Na ponta dos dedos, o batuque da música preferida.

O vestido lembra um balão.
Mas ela não precisa disso para alçar voo.
Basta imaginar.
Ou escrever.

Cria histórias para mudar rumos.
Assim, muda o próprio itinerário.
Se renova a cada dia.

Mas ela também aprendeu a ouvir o silêncio.
A tirar do vácuo o som perfeito de palavras perfeitas.
Quando dá por si, já levou consigo partes de todos.

Vai e deixa com todos partes de si.
Eis a menina de sorriso confortante,
abraço fácil,
olhar transparente
e alma sincera.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

As (quase) invisíveis.

Sentada no canteiro central da avenida, a mulher sorria.
Olhava para o céu e sorria.
Mirava o barraco de plástico sustentado por uma corda de varal e sorria.
Deixava um mar de gente intrigada.

Dos milhares que passavam por ela, poucos entendiam o porquê da alegria.
Mas a razão estava ali, ao lado.
E era acariciada enquanto engolia um pedaço de pão.

A cadelinha retribuía carinho.
Dava voltas em torno de si, envolvia a (nova) dona e punha a cabeça no colo da moradora da rua.
Felicidade mútua.
Muito para quem tem pouco-quase-nada.

Uma vez, a tal mulher revelou algo a uma amiga.
Disse chamar-se "só Margarida mesmo".
Uma quase invisível aos "olhos" da avenida.
Agora acompanhada.

Como as flores que (sobre)vivem em locais inóspitos, ela provou que gente também consegue ser feliz com pouco.
Ou quase nada.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O rei da deselegância.

Não sabe o que é um "bom dia".
"Obrigado" e "por favor", então...
Trato é algo inexistente.
Sempre que pode, dispara farpas.
E já fez muita gente chorar nessa "brincadeira".

Grita...chuta...esmurra mesa...esperneia...
Faz de um tudo para chamar atenção.
Mais parece um meninote.

Ele se julga incompreendido.
Desvalorizado.
E é.
Assim como sabe que, se tiver algum destaque, deixa de chamar atenção.
Por isso, pisa.

Ao redor, ninguém aguenta mais.
Descortesia cansa.
Machuca.

Ele vai acabar só.
Vivas ao rei da deselegância.

sábado, 17 de setembro de 2011

Em vão.

encontros e despedidas em cada estação.
mas o adeus sempre se sobressai.
e remói.
no revirar de sentimentos, o coração apequena.

esquece tudo.
lembra.
apaga novamente.
reaviva.
pensa estar bem.
desmorona.

às vezes, sem chance de levantar.
é preciso reconstruir.
bem longe.
outra realidade; uma tentativa de fuga.
em vão.

volta a acontecer, não importa como se comporte.
e de novo...
de novo...
de novo...
...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A pequena-grande fortaleza.

Envelheceu uma vida em três anos.
Só sofreu enquanto isso.
Não só no corpo.
A alma também foi rasgada.

Ver aquela mulher sempre aflita ajudava no recrudescer.
Deixava os traços pueris do rosto ainda mais sisudos.
E olhe que ela fazia de um tudo para apenas sorrir na frente do pequeno.

Passar mais da metade da curta caminhada pendurado no fio da morte deixou-o assim.
Por mais que houvesse chance de renascer.

Ele lutou.
Além do que pode até.
Foi fortaleza sem qualquer muralha física ao seu redor.
Mas inclusive fortalezas sucumbem.

Sem o pequeno, resta à mulher reconstruir sua própria muralha.
Ela caiu junto com a ida do pequeno.
E isso é coisa que só o tempo trata.
Logo vem o "acostumar" com a saudade.
Deixar de senti-la, jamais.

sábado, 20 de agosto de 2011

O morador do miolo do parque.

Raimundo vive sem luxo algum.
O quarto é miudinho;
o telhado é de amianto.
Só flores rodeiam o lugar.

Mas é à sombra do cajueiro que ele pertence.
Descobriu isso 29 anos atrás, numa das peripécias de um tal destino.
Desde então, tem o verde como vizinho.

Sai...vê o sol...sente a brisa...espia o entrançado de gente...
sente outro sopro de vento...apruma os óculos...respira fundo...
corre pro jardim...e dá uma volta no miolo do parque.
Faz tudo sem precisar sair de casa.

Da família, não tem notícia.
Nem quer.
Habituou-se a ser só.
Acostumou com a saudade de um jeito que ela nem ousa mais qualquer manifesto.

Contudo, o amor está lá...pulsando.
Pela vida.
E sai do peito por nada.
Algo que ele também não quer.
Acostumou com as decisões serem tomadas com base nas batidas do coração.

Aos 78, Raimundo não faz ideia de até quando fica por aqui.
Como diz, isso é coisa que (só) deus decide.
Até lá, porém, vai viver como sempre: com o brilho no olhar e o sorriso no rosto.
Feliz.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Estrela precoce.

O sorriso era só máscara.
Por dentro, o rapaz estava moído.
Até tentou enxergar algo de bom.
E conseguiu em alguns momentos.
Mas não foi o suficiente para continuar a caminhada.

Foi o suficiente apenas para abrir mão de tudo.
Das mãos dadas;
dos encontros furtivos;
dos afagos;
do horizonte prestes a descortinar.
Da vida.

Saltou rumo ao desconhecido.
Preferiu assim a sentir novamente a angústia que lhe sufocava o peito.
Para isso, foi mais corajoso do que o de costume.

Ao invés de contar estrelas aqui embaixo, tornou-se uma.
Daquelas precoces.
E vai brilhar muito.
Para sempre.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O fim dos tempos áureos.

Na infância, já sofria.
Parecia um prelúdio dos anos futuros.
E era mesmo.
Mas a garotinha não tinha como prever isto.
Só certificou-se com o passar do tempo.

Quase tudo na vida levava-a ao choro.
Então...chorou...
Chorou...
Mas calada.
Não reclamava de uma vírgula que o tal de destino punha na sua redação.
Nunca reclamava.
E, ainda assim, no intervalo de uma lágrima e outra, arranjava disposição para sorrir.

Só nos últimos dias teve coragem de confrontar Deus.
Prostrada na cama, disse: "chega! Já sofri demais".
Foi o primeiro e único reclame em mais de oito décadas.

Ontem, descansou.
E deu mais uma lição ao, antes de fechar os olhos, pedir para voltar à serra de onde veio.
Foi Áurea até na despedida.
Fez jus ao nome.

sábado, 23 de julho de 2011

O desenhista de baleias.

Só tem quatro anos.
Mas já quis ser de um tudo nessa vida.
Agora, sonha em saltar de para-quedas.
E vai fazê-lo assim que deixar o quarto branco onde renasceu.
Logo logo isso acontece.

Até chegar ao renascimento, foram dias de batalha.
Precisamente nove meses.
Uma gestação.
As coincidências da vida.

Tempo suficiente para apaixonar uma multidão de conhecidos e estranhos.
Sem esmorecer momento algum.
Estava sempre com o sorriso no rosto, por mais que o corpo forçasse o contrário.
Em suma: é que nem a mãe-guerreira.

Entre varinhas de condão escondidas no quarto e viagens hospitalares, sabe de cor as músicas dos ídolos.
E faz questão de reproduzi-las.
Aqui e lá.

Também desenha baleias.
Muitas baleias.
Mesmo sem saber o significado que elas têm.
O justo significado de (re)começar a vida.

Fantasia dias melhores com o mesmo primor.
Vislumbra a própria festa de aniversário;
a calmaria para o coração da mãe;
a felicidade da avó;
o alívio do pai em vê-lo (enfim) curado;
a certeza de continuidade da caminhada.

Mesmo sem se dar conta, ele ensina a arte da vida.
Porque é na ingenuidade que ela tem cor...
graça...
e esperança.
Acima de tudo esperança.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Morada(s).

Mamãe, calma.
É só o que peço.
Logo logo tudo se ajeita.

O quarto já fica só para a senhora;
o guarda-roupas em breve deixa de ser um amontoado de tecidos;
a sala passará a ser sala;
e o seu banheiro ganhará mais borboletas cor de rosa.

A cozinha também terá o tal armário de inox.
E os bancos elevados.

O quintal ficará ainda mais verde com o reviver do caramanchão.
Aí é que as rolinhas não vão querer sair mesmo.
Vai sobrar pra senhora alimentá-las todo dia.

O verde das paredes deixarão de ser uniformes.
Daqui a pouco os quadros tomarão de conta.
Alegrarão ainda mais os corredores...

A cômoda antiga num instante vai ser recuperada.
Estará novinha em folha para lembrar seu antigo quarto.
E a cama antiga voltará para abrigar o enorme colchão que lhe recebe com um sorriso de menina moleca enrolada no lençol multicolorido antes do sono.

Mamãe...está pertinho de as coisas se aprumarem de vez.
A escada até já está pronta.
De madeira maracatiara e no capricho, como a senhora gosta.

Logo logo a minha morada será, enfim, a sua morada.
Para sempre.
Como tem que ser.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida a dois.

Anos atrás, era ela quem insistia.
Queria, a qualquer custo, vê-lo encorpar.
Oferecia de um tudo.
E só descansava quando ouvia o "tá bommm, mãe, eu quero".

Foi uma vida inteira assim.
Exatos 24 (quase 25) anos.
Agora, o ciclo se inverte.
É ele quem insiste.

Não por birra.
Mas por pura necessidade.
Necessidade dela...que, aos 83, mais parece uma menina e danou-se a dar trabalho para tudo.

Ao enxergar-se no papel antes da mãe, o garoto ri.
Sequer tem a oportunidade de perder a paciência.
O fato de tê-la ali, pertinho, definitivamente, depois de uma vida inteira, o mantém em êxtase.
Em felicidade constante.

Logo mais, vem o jantar.
E o café...
e o almoço...
e o lanche...
e de novo o jantar...
e a vida a dois.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O pedinte e a gentileza.

De placa no pescoço, o homem estende a mão no sinal.
Todo santo dia é assim.
A mendicância é o que preenchia o dia dele.
E o que coloca comida na mesa.

Antes de o sol nascer, o pouco mais de metro e meio está lá.
Quando tudo fica escuro também.
Parece que sequer dorme.
Recebe não o tempo todo e...não desiste.

Recebeu algo inusitado hoje.
Estranhou.
Virou a cara quando o motorista estendeu-lhe o braço.
E só.
Nada de moedas.

Para evitar outra negativa, ofereceu um aperto de mão.
A reação, porém, assustou.
Habituado a tanta grosseria, o pedinte virou espelho.
Mas sentiu-se mal logo após.

Sentou à beira do canteiro central...
baixou a cabeça...
pensou...
pensou...
E decidiu aceitar o próximo cumprimento.

Contudo, ao tocar a palma do motorista seguinte, só catou moedas.
Nada de gentilezas.
Apenas duas douradas de R$ 0,10.
No fim, pediu um aperto.
Ganhou.
Saiu feliz da vida.

terça-feira, 12 de julho de 2011

As estrelas e a felicidade.

São necessárias três estrelas para fazê-lo feliz.
Uma delas com gosto de limão (o único doce do mundo);
a outra sempre feliz (e dançante);
e a outra com a sobriedade à flor da pele (para equilibrar).

O problema foi a danada da vida tê-las espalhado pelo mundo.
Jogou num pedaço de terra flutuante.
Lugar alcançável só a 52 mil metros de altura.
De doer o peito.

Aí...toda despedida vira (re)começo.
Mais para ele que para as estrelas.
Afinal...elas têm umas às outras...sempre.
Enquanto o garoto é só.
Ou quase isso.

Não à toa, os dias dele são de espera.
Angústia pura.
E o pior é constatar o nada a fazer para preencher o vazio que fica após os abraços de até breve.

A única saída seria juntar-se às estrelas.
Mas isso está na casa do impossível.
O céu está distante demais.
Por ora.

Até o momento chegar, ele aquece o coração com memórias.
E abre o sorriso ao lembrar da reciprocidade do amor.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As outras certezas da vida.

Ao neto adolescente, a senhorinha dizia sempre que possível: "a morte é a única certeza da vida".
No início, ele ouvia e calava.
Apenas.
Sequer refletia sobre.

Anos depois, ao ouvir a mesma fala da avó, o rapaz "encucou".
E começou a pensar a respeito.
Se perguntava pelos sorrisos, os abraços de conforto, os descobrimentos.
Pelos olhares sinceros, os beijos, os desejos.

Pelos assaltos à geladeira de madrugada, as piadas bobas (mas necessárias), os silêncios constrangedores.
Pelas sessões devoradoras de brigadeiro, os cinemas com pipoca e refrigerante, as vontades inexplicáveis de cantarolar alto no meio da rua depois de um sonho realizado.

Ahhhh, os sonhos!
Com o tempo, o jovem passou a se perguntar sobre os sonhos.
Questionou também pelas lágrimas, as decepções, as traições sofridas.
E as praticadas.

Pensou ainda sobre as viagens em turma, os gracejos em terrras desconhecidas, as paixões, o coração acelerado ao ver alguém especial, o sexo intenso, a respiração de pé do ouvido.

Tudo isso também não é certeza na caminhada?
E olhe que ele só não vislumbrou mais por estar apenas no começo do itinerário.
Até a tal morte chegar, vai ter vivido tanto!
Mais pro bem do que pro mal.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O homem do coração dilacerado.

Antônio mal deixava o interrogador falar.
Narrava a história aos atropelos.
Soluçava, enxugava os olhos, respirava e voltava ao enredo.
Enredo trágico.

Apontava para o buraco raso.
E lacrimejava ao ver as garras de ferro apontadas para cima.
Numa delas, evidentes manchas vermelhas.
Sangue.

Ele fez questão de levar o moço ali.
Puxou pelo braço e ficou um bom tempo espiando a fenda.
Sem parar de falar.
A voz esganiçada.
Sempre.

Mas, enfim, deixou a beira do abisminho.
Sete minutos que mais pareceram uma eternidade.
Por mais que o jovem estivesse acompanhado.

No caminho de volta, uma parada.
E outra fisgada no peito.
O asfalto também tinha as tais manchas vermelhas.
Em dois pontos distintos.

Em frente ao que deveria ser um reduto de paz, só se sentia angústia.
De Antônio e outros seis - que deveriam ser sete.
Todos enlutados pela ida precoce de um meninote de oito anos cheio de sonhos.
E feliz.

Ao "inquisidor", só restou ir embora...
...os óculos escuros escondendo os olhos marejados.
Mas ainda bem que foi assim.
Pai, mãe e irmãos já estavam devastados por demais.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Plenitude.

Enfim, pai e mãe estão sob o mesmo teto.
Depois de 25 anos.
E o coração do rapaz cabe no peito sabe deus como.
É felicidade demais.

Só de pensar que terá alguém esperando por ele em casa já faz o sorriso nascer.
Daqueles largos.
Que vão de orelha à orelha.

Só de imaginar o abraço carinhoso, a bênção dada e o olhar de ternura, ele esquece qualquer problema.
Sabe que, com ela, nada de ruim posterga.
TUDO passa.

Por isso, imortalizaria os gestos.
Se fosse possível.
Como não é, leva-os na memória.
Desde já.

Assim, garante conforto eterno.
Mesmo que a vida decida passar-lhe a perna de alguma forma.
Mas ela agora que tem 83.
É uma menina.
Mal começou a caminhar.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A noiva no presídio.

A maquiagem era retocada;
o vestido ajustado;
o cabelo aprumado;
o cigarro aceso;
e o perfume redistribuído.

Os portões estavam abertos;
as cadeiras dispostas;
os enfeites no lugar;
os corações grudados na parede;
e o "amor" escrito no centro.

A mulher de branco chegou na hora;
a de azul também;
as demais de branco num instante organizaram-se;
o buquê foi improvisado;
e a ansiedade logo deu espaço ao sorriso.

A juíza aportou;
a declaração foi lida;
as duas disseram "sim";
as assinaturas foram caprichadas;
e as vidas seladas.

Marluce passou seis anos trancafiada;
Andrelina quatro;
e foi nesse ínterim que se cruzaram;
para nunca mais separarem;
seja dentro ou fora da cela.

Porque o crime foi uma maneira inventada pela vida para elas se conhecerem.
E não há quem explique isso.
O torcer pelo amor delas é involuntário.
A qualquer um que enxergue nele o retrato da felicidade.
Independente da origem.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Cinquentão e o milagre.

No fundo, ele só quer o bem.
Para si e todos ao redor.
Mas faz pose de durão e inconsequente.
Aos 50, mais parece um garotinho.

Quer atenção a qualquer custo.
Tem birra, grita, esperneia.
Ameaça bobagens, bate portas, deixa o portão da casa aberto.
Entre uma coisa e outra, abala duas...três gerações.
E acaba ferindo alguém.

Mas não no corpo.
Machuca na alma.
E daquele tipo de ferida difícil de cicatrizar.
Que só o tempo fecha.

Enquanto isso não acontece, corações ficam angustiados.
Preocupam-se com as chances de um desastre.
Ou de uma redenção.
Redenção que, a esta altura, seria milagre.

E qual o problema de ser milagre?
Eles acontecem todo dia.
A todo instante.
Sob os nossos olhos.
A gente que teima em não enxergar.

O de Roberto está perto.
É só espremer um pouco a retina.
A dele, principalmente.

domingo, 12 de junho de 2011

Cordão na boca, felicidade na vida.

Os dedos não largavam o cordão, que não largava os dentes.
Acanhado, o meninote foi soltando o sorriso aos poucos.
E não parava de perguntar.
Sobre tudo.

Queria saber o porquê de a lente da câmera ser tão grande;
o que tanta gente fazia aglomerada na praça;
se o fotógrafo ia dançar;
se a foto do crachá condizia com quem o carregava no pescoço;
o que as pessoas guardavam no bolso;
t-u-d-o.

Entre uma indagação e outra, pedia para ser clicado.
Foi.
Várias vezes.
Mas não largava o cordão do calção preto com emblema do Corinthians.
Nem deixava de sorrir.

Quando o amontoado de pessoas começou a coreografia, ele, enfim, aquietou-se.
Parecia enfeitiçado.
Deitou num pedaço de concreto inclinado e observou cada movimento.
Não piscou uma única vez.
Os olhos eram só brilho.

No fim, aplaudiu junto com a massa.
E voltou ao interrogatório.
Dessa vez, apenas com o repórter.
Queria saber o porquê de ele não ter dançado;
se ele era ele ou ela;
de onde vinha;
para onde iria dali...

Quando os questionamentos cessaram, Alan abraçou, sorriu, deu as costas e tomou a rua.
Sumiu na multidão.
Com o cordão do calção preto de emblema do Corinthians na boca.


FOTO: Rafael Cavalcante.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Repentino.

Tão jovem para um coração amargurado.
Nada de amores;
nada de afagos;
nada de gracejos
Nada.

Só tristeza;
rancor;
melancolia;
gemidos;
choro;
arrependimento.

Assim, deixa de (vi)ver o lado bom da vida.
Seja ela sozinha ou acompanhada.
Assim, opta pela (auto)piedade.
Nem isso consegue.

Uma pena...
...pois tinha tudo para, hoje, estar feliz.
Só ou acompanhado.
Sim...houve quem tentasse ajudá-lo.
Houve quem se apaixonasse.
Em vão.

Diz ele que sofrimento e a amargura são culpa de outro.
Fora abandonado e ficara assim.
De forma repentina.
Na verdade, só colhe tudo o que plantou para outras pessoas.

As voltas que a vida dá.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A garotinha do "mais"

Bia leva consigo sua sentença de morte.
Sabe disso.
Mas faz de conta que nada sente.
Melhor.

Assim...aproveita mais os dias restantes por aqui.
Vai mais ao parquinho.
Desce mais no escorregador.
Balança mais na gangorra.
Pinota mais de mureta em mureta.

Também abraça mais.
Beija mais.
Sorri mais.
Lança mais olhares de conforto.

E ainda pergunta mais nomes.
E aponta para mais fotos de crachá.
E agarra mais mãos rumo ao desconhecido.
E pouco chora.

Na verdade, Bia leva consigo sua sentença de vida:
a alegria.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O cearense-carioca, os cachorros, o gatinho e o horizonte

Aos 51, ele conquistou nada material.
Sequer tem onde morar.
Desfez-se da família e deixou o casebre onde se abrigava por não ter mais como pagar aluguel.
Encontrou refúgio em escombros abandonados.

Vive só.
Num vão sujo e sem reboco, mal vê gente.
Os companheiros são os vira-latas.
Três.
Dois machos e uma fêmea.
E um gatinho recém-nascido cinzento de olho azul.
Todos dóceis a qualquer um.

Mas quem está infeliz ali?
O cearense-carioca pode desconhecer pompas.
Pode não mais saber o que é calor humano.
Contudo, é na possibilidade de armar a rede azul de frente para o mar que ele se mantém na jornada por aqui.

É por causa dela também que reflete.
Sobre si e a cidade.
Mesmo na adversidade, com o mundo insistindo em impor ao homem-faz-tudo a pecha de invisível, Edvar tem esperanças.
As frustrações são quase zero.
Afinal, dá para ver um horizonte inteiro da rede azul.

Perder o vão sujo e sem reboco significaria o fim.
De tudo.
Para ele, os cachorros e o gatinho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fim da linha.

Abrir mão da vida era, sim, uma opção.
Para ele.
E só para ele.
Porque todos em volta jamais entenderiam as razões.
Por mais claras que fossem.
Afinal...o jovem rapaz chegara onde muita gente queria.

Mas não era feliz.
Em nenhuma instância.
Sorria por pura convenção.
No fim das contas, desauguáva em choro.
Bastava abrir a porta do quarto.

No começo, via no outro a responsabilidade pelo seu sofrimento.
Agora, aponta o dedo para si.
Com razão.
Esperar demais da vida é veneno.
Similar ao que mata de verdade e está guardado na cozinha de casa.

Não distante, o rapaz fará uma bobagem.
Contudo, ninguém acreditará quando o aviso for dado.
Uma pena.
Ainda haveria chance de um encontro com a felicidade (sempra há).
Mas ele terá cansado de esperar.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Ofuscada.

Ela até vê. Mas não enxerga.
Influência do próprio nome.
Luz demais ofusca.
Daí a impossibilidade de perceber o bom no outro.

Para a criatura, há esperteza alheia em tudo.
Nada é feito com sinceridade.
Amor, então, é coisa de cafona.

Age assim porque, no fundo, sente-se insegura.
Sofre.
E ninguém estende a mão para ajudar.
O maldito individualismo.

Há quem diga ter chance de melhora.
Um dia, quem sabe.
Por ora, a vida dela é pessimismo.

Só lamento.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Envolta em garra. E paixão.

O porte físico esconde a verdadeira força.
Apesar de franzina, ela carrega mundos nas costas.
Três.

O da filha é o mais leve.
Ainda está cheio de sorrisos; ingenuidade; alegria gratuita.
Não conhece o peso da cadeira de rodas sobre a qual o pai está.
Nem entende que ele já teve o domínio das pernas, quadril, braços e dedos.

O do companheiro é o de carga mediana.
Mas não só pelo peso da cadeira de rodas.
É por todo o resto.
Os sonhos frustrados, os passeios adiados (nunca cancelados), as risadas substituídas pelo silêncio...

É dela o mundo de maior fardo.
Afinal...nem todo mundo lida bem com reviravoltas.
Em especial se elas acontecem numa cama elástica e subjugam os desejos de mulher; mãe; ser humano a quase nada.

Mas Ozivani é, antes de tudo, apaixonada.
Incondicionalmente.
E pretende ficar ao lado do único homem que teve na vida até para sempre.
Mesmo que não haja cura.
Há esperança.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A menina dos suspiros e o menino maduro.

Longe dele, ela anda cabisbaixa.
Como não tem para quem olhar, prefere a segurança do chão.
Parece uma menina perdida.
E triste.
Na verdade, é.

Ao lado dele, também mais parece uma garotinha.
Daquelas que vivem de suspiros.
Aí...come alguns...e enche o pulmão de ar para liberar outros.
É involuntário.

Já ele, sem ela, é um moleque.
Não nega sorrisos, arengas ou traquinagens.
Pura encenação.
Tudo.

O menino prefere mesmo a maturidade de quando está com ela.
Tem orgulho de (s)ter (d)a menina-moça-dos-suspiros.
E é feliz.

Apesar de a idade cronológica de menina ter ficado para trás, ela age como se fosse uma o tempo todo.
Mesmo com a idade cronológica de homem estar anos à frente, ele age como se fosse um o tempo todo.
Ambos sentem-se melhor assim.
E estão certíssimos.

Antes lembrar dos sete meses de amor acompanhado do que dos anos de amor sozinho.
Por mais que tenha havido um hiato entre o quinto e sexto aniversários.
Eles estão apenas (re)começando.
Há uma vida inteira por vir.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A menina do vestido florido.

Gleidiana usa um vestido encardido.
Branco...cheio de flores, mas sujo.
Em casa, vive um dilema com os três irmãos.
É roupa limpa ou pão para comer.

Ainda assim, a menina sorri.
Ignora as amarguras do Morro Santa Terezinha.
Prefere mostrar os dentes.
Mesmo que de forma tímida.

Fala pouco, na verdade.
Prefere saltitar em bancos quebrados.
Quando não, brinca de chocolate inglês.
Rindo.
Sempre.

Ela alcança o outro lado da praça e ri;
espia a vista da selva de pedra e ri;
olha pro lado, encontra o espelho d´água e ri;
leva um tombo e ri;
ouve o chamado do pai de volta pra casa e ri.

Gleidiana tem motivo nenhum para ser como é.
Mas optou por enxergar o lado bom.
De tudo.
Até das raladuras decorrentes do tombo.
Vai ver é coisa da infância, que falta em tanta gente e poderia ser cultivada em todos nós.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Santa Tereza.

Ela tinha tudo para dar errado.
Nasceu no meio do mato, nas brenhas do Ceará, em meio a palmeiras.
No terreno de casa, tinha uma lagoa.
Mas era coisa simples.
De herança do bisavô...porque sempre foi pobre.

Mas mal banhou nela.
Veio pra cidade grande cedo.
Ainda menina.
E foi em meio às charretes da década de 1940 que se fez mulher.

Casou.
Descasou anos depois.
E apaixonou-se mesmo só por um homem.
Antes do desquite, gerou oito.
Sete garotos e uma garota.

Teve numa prima o porto seguro de criação dos rebentos.
Até a companheira ceder a um câncer.
Foi aí que tudo complicou.
E ela seguiu em frente.
Ainda que sozinha.

Criou os oito.
Sem negar espaço para mais um.
Adotou.
Formou seis e encaminhou todos para a felicidade.

Hoje, é feliz por tabela.
E orgulhosa da própria trajetória.
Na verdade, é uma fortaleza.
Justo ela...que tinha tudo para dar errado.
TINHA.
Calou a boca do destino.