sábado, 23 de julho de 2011

O desenhista de baleias.

Só tem quatro anos.
Mas já quis ser de um tudo nessa vida.
Agora, sonha em saltar de para-quedas.
E vai fazê-lo assim que deixar o quarto branco onde renasceu.
Logo logo isso acontece.

Até chegar ao renascimento, foram dias de batalha.
Precisamente nove meses.
Uma gestação.
As coincidências da vida.

Tempo suficiente para apaixonar uma multidão de conhecidos e estranhos.
Sem esmorecer momento algum.
Estava sempre com o sorriso no rosto, por mais que o corpo forçasse o contrário.
Em suma: é que nem a mãe-guerreira.

Entre varinhas de condão escondidas no quarto e viagens hospitalares, sabe de cor as músicas dos ídolos.
E faz questão de reproduzi-las.
Aqui e lá.

Também desenha baleias.
Muitas baleias.
Mesmo sem saber o significado que elas têm.
O justo significado de (re)começar a vida.

Fantasia dias melhores com o mesmo primor.
Vislumbra a própria festa de aniversário;
a calmaria para o coração da mãe;
a felicidade da avó;
o alívio do pai em vê-lo (enfim) curado;
a certeza de continuidade da caminhada.

Mesmo sem se dar conta, ele ensina a arte da vida.
Porque é na ingenuidade que ela tem cor...
graça...
e esperança.
Acima de tudo esperança.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Morada(s).

Mamãe, calma.
É só o que peço.
Logo logo tudo se ajeita.

O quarto já fica só para a senhora;
o guarda-roupas em breve deixa de ser um amontoado de tecidos;
a sala passará a ser sala;
e o seu banheiro ganhará mais borboletas cor de rosa.

A cozinha também terá o tal armário de inox.
E os bancos elevados.

O quintal ficará ainda mais verde com o reviver do caramanchão.
Aí é que as rolinhas não vão querer sair mesmo.
Vai sobrar pra senhora alimentá-las todo dia.

O verde das paredes deixarão de ser uniformes.
Daqui a pouco os quadros tomarão de conta.
Alegrarão ainda mais os corredores...

A cômoda antiga num instante vai ser recuperada.
Estará novinha em folha para lembrar seu antigo quarto.
E a cama antiga voltará para abrigar o enorme colchão que lhe recebe com um sorriso de menina moleca enrolada no lençol multicolorido antes do sono.

Mamãe...está pertinho de as coisas se aprumarem de vez.
A escada até já está pronta.
De madeira maracatiara e no capricho, como a senhora gosta.

Logo logo a minha morada será, enfim, a sua morada.
Para sempre.
Como tem que ser.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida a dois.

Anos atrás, era ela quem insistia.
Queria, a qualquer custo, vê-lo encorpar.
Oferecia de um tudo.
E só descansava quando ouvia o "tá bommm, mãe, eu quero".

Foi uma vida inteira assim.
Exatos 24 (quase 25) anos.
Agora, o ciclo se inverte.
É ele quem insiste.

Não por birra.
Mas por pura necessidade.
Necessidade dela...que, aos 83, mais parece uma menina e danou-se a dar trabalho para tudo.

Ao enxergar-se no papel antes da mãe, o garoto ri.
Sequer tem a oportunidade de perder a paciência.
O fato de tê-la ali, pertinho, definitivamente, depois de uma vida inteira, o mantém em êxtase.
Em felicidade constante.

Logo mais, vem o jantar.
E o café...
e o almoço...
e o lanche...
e de novo o jantar...
e a vida a dois.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O pedinte e a gentileza.

De placa no pescoço, o homem estende a mão no sinal.
Todo santo dia é assim.
A mendicância é o que preenchia o dia dele.
E o que coloca comida na mesa.

Antes de o sol nascer, o pouco mais de metro e meio está lá.
Quando tudo fica escuro também.
Parece que sequer dorme.
Recebe não o tempo todo e...não desiste.

Recebeu algo inusitado hoje.
Estranhou.
Virou a cara quando o motorista estendeu-lhe o braço.
E só.
Nada de moedas.

Para evitar outra negativa, ofereceu um aperto de mão.
A reação, porém, assustou.
Habituado a tanta grosseria, o pedinte virou espelho.
Mas sentiu-se mal logo após.

Sentou à beira do canteiro central...
baixou a cabeça...
pensou...
pensou...
E decidiu aceitar o próximo cumprimento.

Contudo, ao tocar a palma do motorista seguinte, só catou moedas.
Nada de gentilezas.
Apenas duas douradas de R$ 0,10.
No fim, pediu um aperto.
Ganhou.
Saiu feliz da vida.

terça-feira, 12 de julho de 2011

As estrelas e a felicidade.

São necessárias três estrelas para fazê-lo feliz.
Uma delas com gosto de limão (o único doce do mundo);
a outra sempre feliz (e dançante);
e a outra com a sobriedade à flor da pele (para equilibrar).

O problema foi a danada da vida tê-las espalhado pelo mundo.
Jogou num pedaço de terra flutuante.
Lugar alcançável só a 52 mil metros de altura.
De doer o peito.

Aí...toda despedida vira (re)começo.
Mais para ele que para as estrelas.
Afinal...elas têm umas às outras...sempre.
Enquanto o garoto é só.
Ou quase isso.

Não à toa, os dias dele são de espera.
Angústia pura.
E o pior é constatar o nada a fazer para preencher o vazio que fica após os abraços de até breve.

A única saída seria juntar-se às estrelas.
Mas isso está na casa do impossível.
O céu está distante demais.
Por ora.

Até o momento chegar, ele aquece o coração com memórias.
E abre o sorriso ao lembrar da reciprocidade do amor.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As outras certezas da vida.

Ao neto adolescente, a senhorinha dizia sempre que possível: "a morte é a única certeza da vida".
No início, ele ouvia e calava.
Apenas.
Sequer refletia sobre.

Anos depois, ao ouvir a mesma fala da avó, o rapaz "encucou".
E começou a pensar a respeito.
Se perguntava pelos sorrisos, os abraços de conforto, os descobrimentos.
Pelos olhares sinceros, os beijos, os desejos.

Pelos assaltos à geladeira de madrugada, as piadas bobas (mas necessárias), os silêncios constrangedores.
Pelas sessões devoradoras de brigadeiro, os cinemas com pipoca e refrigerante, as vontades inexplicáveis de cantarolar alto no meio da rua depois de um sonho realizado.

Ahhhh, os sonhos!
Com o tempo, o jovem passou a se perguntar sobre os sonhos.
Questionou também pelas lágrimas, as decepções, as traições sofridas.
E as praticadas.

Pensou ainda sobre as viagens em turma, os gracejos em terrras desconhecidas, as paixões, o coração acelerado ao ver alguém especial, o sexo intenso, a respiração de pé do ouvido.

Tudo isso também não é certeza na caminhada?
E olhe que ele só não vislumbrou mais por estar apenas no começo do itinerário.
Até a tal morte chegar, vai ter vivido tanto!
Mais pro bem do que pro mal.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O homem do coração dilacerado.

Antônio mal deixava o interrogador falar.
Narrava a história aos atropelos.
Soluçava, enxugava os olhos, respirava e voltava ao enredo.
Enredo trágico.

Apontava para o buraco raso.
E lacrimejava ao ver as garras de ferro apontadas para cima.
Numa delas, evidentes manchas vermelhas.
Sangue.

Ele fez questão de levar o moço ali.
Puxou pelo braço e ficou um bom tempo espiando a fenda.
Sem parar de falar.
A voz esganiçada.
Sempre.

Mas, enfim, deixou a beira do abisminho.
Sete minutos que mais pareceram uma eternidade.
Por mais que o jovem estivesse acompanhado.

No caminho de volta, uma parada.
E outra fisgada no peito.
O asfalto também tinha as tais manchas vermelhas.
Em dois pontos distintos.

Em frente ao que deveria ser um reduto de paz, só se sentia angústia.
De Antônio e outros seis - que deveriam ser sete.
Todos enlutados pela ida precoce de um meninote de oito anos cheio de sonhos.
E feliz.

Ao "inquisidor", só restou ir embora...
...os óculos escuros escondendo os olhos marejados.
Mas ainda bem que foi assim.
Pai, mãe e irmãos já estavam devastados por demais.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Plenitude.

Enfim, pai e mãe estão sob o mesmo teto.
Depois de 25 anos.
E o coração do rapaz cabe no peito sabe deus como.
É felicidade demais.

Só de pensar que terá alguém esperando por ele em casa já faz o sorriso nascer.
Daqueles largos.
Que vão de orelha à orelha.

Só de imaginar o abraço carinhoso, a bênção dada e o olhar de ternura, ele esquece qualquer problema.
Sabe que, com ela, nada de ruim posterga.
TUDO passa.

Por isso, imortalizaria os gestos.
Se fosse possível.
Como não é, leva-os na memória.
Desde já.

Assim, garante conforto eterno.
Mesmo que a vida decida passar-lhe a perna de alguma forma.
Mas ela agora que tem 83.
É uma menina.
Mal começou a caminhar.