quinta-feira, 19 de maio de 2011

O cearense-carioca, os cachorros, o gatinho e o horizonte

Aos 51, ele conquistou nada material.
Sequer tem onde morar.
Desfez-se da família e deixou o casebre onde se abrigava por não ter mais como pagar aluguel.
Encontrou refúgio em escombros abandonados.

Vive só.
Num vão sujo e sem reboco, mal vê gente.
Os companheiros são os vira-latas.
Três.
Dois machos e uma fêmea.
E um gatinho recém-nascido cinzento de olho azul.
Todos dóceis a qualquer um.

Mas quem está infeliz ali?
O cearense-carioca pode desconhecer pompas.
Pode não mais saber o que é calor humano.
Contudo, é na possibilidade de armar a rede azul de frente para o mar que ele se mantém na jornada por aqui.

É por causa dela também que reflete.
Sobre si e a cidade.
Mesmo na adversidade, com o mundo insistindo em impor ao homem-faz-tudo a pecha de invisível, Edvar tem esperanças.
As frustrações são quase zero.
Afinal, dá para ver um horizonte inteiro da rede azul.

Perder o vão sujo e sem reboco significaria o fim.
De tudo.
Para ele, os cachorros e o gatinho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fim da linha.

Abrir mão da vida era, sim, uma opção.
Para ele.
E só para ele.
Porque todos em volta jamais entenderiam as razões.
Por mais claras que fossem.
Afinal...o jovem rapaz chegara onde muita gente queria.

Mas não era feliz.
Em nenhuma instância.
Sorria por pura convenção.
No fim das contas, desauguáva em choro.
Bastava abrir a porta do quarto.

No começo, via no outro a responsabilidade pelo seu sofrimento.
Agora, aponta o dedo para si.
Com razão.
Esperar demais da vida é veneno.
Similar ao que mata de verdade e está guardado na cozinha de casa.

Não distante, o rapaz fará uma bobagem.
Contudo, ninguém acreditará quando o aviso for dado.
Uma pena.
Ainda haveria chance de um encontro com a felicidade (sempra há).
Mas ele terá cansado de esperar.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Ofuscada.

Ela até vê. Mas não enxerga.
Influência do próprio nome.
Luz demais ofusca.
Daí a impossibilidade de perceber o bom no outro.

Para a criatura, há esperteza alheia em tudo.
Nada é feito com sinceridade.
Amor, então, é coisa de cafona.

Age assim porque, no fundo, sente-se insegura.
Sofre.
E ninguém estende a mão para ajudar.
O maldito individualismo.

Há quem diga ter chance de melhora.
Um dia, quem sabe.
Por ora, a vida dela é pessimismo.

Só lamento.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Envolta em garra. E paixão.

O porte físico esconde a verdadeira força.
Apesar de franzina, ela carrega mundos nas costas.
Três.

O da filha é o mais leve.
Ainda está cheio de sorrisos; ingenuidade; alegria gratuita.
Não conhece o peso da cadeira de rodas sobre a qual o pai está.
Nem entende que ele já teve o domínio das pernas, quadril, braços e dedos.

O do companheiro é o de carga mediana.
Mas não só pelo peso da cadeira de rodas.
É por todo o resto.
Os sonhos frustrados, os passeios adiados (nunca cancelados), as risadas substituídas pelo silêncio...

É dela o mundo de maior fardo.
Afinal...nem todo mundo lida bem com reviravoltas.
Em especial se elas acontecem numa cama elástica e subjugam os desejos de mulher; mãe; ser humano a quase nada.

Mas Ozivani é, antes de tudo, apaixonada.
Incondicionalmente.
E pretende ficar ao lado do único homem que teve na vida até para sempre.
Mesmo que não haja cura.
Há esperança.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A menina dos suspiros e o menino maduro.

Longe dele, ela anda cabisbaixa.
Como não tem para quem olhar, prefere a segurança do chão.
Parece uma menina perdida.
E triste.
Na verdade, é.

Ao lado dele, também mais parece uma garotinha.
Daquelas que vivem de suspiros.
Aí...come alguns...e enche o pulmão de ar para liberar outros.
É involuntário.

Já ele, sem ela, é um moleque.
Não nega sorrisos, arengas ou traquinagens.
Pura encenação.
Tudo.

O menino prefere mesmo a maturidade de quando está com ela.
Tem orgulho de (s)ter (d)a menina-moça-dos-suspiros.
E é feliz.

Apesar de a idade cronológica de menina ter ficado para trás, ela age como se fosse uma o tempo todo.
Mesmo com a idade cronológica de homem estar anos à frente, ele age como se fosse um o tempo todo.
Ambos sentem-se melhor assim.
E estão certíssimos.

Antes lembrar dos sete meses de amor acompanhado do que dos anos de amor sozinho.
Por mais que tenha havido um hiato entre o quinto e sexto aniversários.
Eles estão apenas (re)começando.
Há uma vida inteira por vir.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A menina do vestido florido.

Gleidiana usa um vestido encardido.
Branco...cheio de flores, mas sujo.
Em casa, vive um dilema com os três irmãos.
É roupa limpa ou pão para comer.

Ainda assim, a menina sorri.
Ignora as amarguras do Morro Santa Terezinha.
Prefere mostrar os dentes.
Mesmo que de forma tímida.

Fala pouco, na verdade.
Prefere saltitar em bancos quebrados.
Quando não, brinca de chocolate inglês.
Rindo.
Sempre.

Ela alcança o outro lado da praça e ri;
espia a vista da selva de pedra e ri;
olha pro lado, encontra o espelho d´água e ri;
leva um tombo e ri;
ouve o chamado do pai de volta pra casa e ri.

Gleidiana tem motivo nenhum para ser como é.
Mas optou por enxergar o lado bom.
De tudo.
Até das raladuras decorrentes do tombo.
Vai ver é coisa da infância, que falta em tanta gente e poderia ser cultivada em todos nós.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Santa Tereza.

Ela tinha tudo para dar errado.
Nasceu no meio do mato, nas brenhas do Ceará, em meio a palmeiras.
No terreno de casa, tinha uma lagoa.
Mas era coisa simples.
De herança do bisavô...porque sempre foi pobre.

Mas mal banhou nela.
Veio pra cidade grande cedo.
Ainda menina.
E foi em meio às charretes da década de 1940 que se fez mulher.

Casou.
Descasou anos depois.
E apaixonou-se mesmo só por um homem.
Antes do desquite, gerou oito.
Sete garotos e uma garota.

Teve numa prima o porto seguro de criação dos rebentos.
Até a companheira ceder a um câncer.
Foi aí que tudo complicou.
E ela seguiu em frente.
Ainda que sozinha.

Criou os oito.
Sem negar espaço para mais um.
Adotou.
Formou seis e encaminhou todos para a felicidade.

Hoje, é feliz por tabela.
E orgulhosa da própria trajetória.
Na verdade, é uma fortaleza.
Justo ela...que tinha tudo para dar errado.
TINHA.
Calou a boca do destino.