sexta-feira, 24 de junho de 2011

A noiva no presídio.

A maquiagem era retocada;
o vestido ajustado;
o cabelo aprumado;
o cigarro aceso;
e o perfume redistribuído.

Os portões estavam abertos;
as cadeiras dispostas;
os enfeites no lugar;
os corações grudados na parede;
e o "amor" escrito no centro.

A mulher de branco chegou na hora;
a de azul também;
as demais de branco num instante organizaram-se;
o buquê foi improvisado;
e a ansiedade logo deu espaço ao sorriso.

A juíza aportou;
a declaração foi lida;
as duas disseram "sim";
as assinaturas foram caprichadas;
e as vidas seladas.

Marluce passou seis anos trancafiada;
Andrelina quatro;
e foi nesse ínterim que se cruzaram;
para nunca mais separarem;
seja dentro ou fora da cela.

Porque o crime foi uma maneira inventada pela vida para elas se conhecerem.
E não há quem explique isso.
O torcer pelo amor delas é involuntário.
A qualquer um que enxergue nele o retrato da felicidade.
Independente da origem.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Cinquentão e o milagre.

No fundo, ele só quer o bem.
Para si e todos ao redor.
Mas faz pose de durão e inconsequente.
Aos 50, mais parece um garotinho.

Quer atenção a qualquer custo.
Tem birra, grita, esperneia.
Ameaça bobagens, bate portas, deixa o portão da casa aberto.
Entre uma coisa e outra, abala duas...três gerações.
E acaba ferindo alguém.

Mas não no corpo.
Machuca na alma.
E daquele tipo de ferida difícil de cicatrizar.
Que só o tempo fecha.

Enquanto isso não acontece, corações ficam angustiados.
Preocupam-se com as chances de um desastre.
Ou de uma redenção.
Redenção que, a esta altura, seria milagre.

E qual o problema de ser milagre?
Eles acontecem todo dia.
A todo instante.
Sob os nossos olhos.
A gente que teima em não enxergar.

O de Roberto está perto.
É só espremer um pouco a retina.
A dele, principalmente.

domingo, 12 de junho de 2011

Cordão na boca, felicidade na vida.

Os dedos não largavam o cordão, que não largava os dentes.
Acanhado, o meninote foi soltando o sorriso aos poucos.
E não parava de perguntar.
Sobre tudo.

Queria saber o porquê de a lente da câmera ser tão grande;
o que tanta gente fazia aglomerada na praça;
se o fotógrafo ia dançar;
se a foto do crachá condizia com quem o carregava no pescoço;
o que as pessoas guardavam no bolso;
t-u-d-o.

Entre uma indagação e outra, pedia para ser clicado.
Foi.
Várias vezes.
Mas não largava o cordão do calção preto com emblema do Corinthians.
Nem deixava de sorrir.

Quando o amontoado de pessoas começou a coreografia, ele, enfim, aquietou-se.
Parecia enfeitiçado.
Deitou num pedaço de concreto inclinado e observou cada movimento.
Não piscou uma única vez.
Os olhos eram só brilho.

No fim, aplaudiu junto com a massa.
E voltou ao interrogatório.
Dessa vez, apenas com o repórter.
Queria saber o porquê de ele não ter dançado;
se ele era ele ou ela;
de onde vinha;
para onde iria dali...

Quando os questionamentos cessaram, Alan abraçou, sorriu, deu as costas e tomou a rua.
Sumiu na multidão.
Com o cordão do calção preto de emblema do Corinthians na boca.


FOTO: Rafael Cavalcante.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Repentino.

Tão jovem para um coração amargurado.
Nada de amores;
nada de afagos;
nada de gracejos
Nada.

Só tristeza;
rancor;
melancolia;
gemidos;
choro;
arrependimento.

Assim, deixa de (vi)ver o lado bom da vida.
Seja ela sozinha ou acompanhada.
Assim, opta pela (auto)piedade.
Nem isso consegue.

Uma pena...
...pois tinha tudo para, hoje, estar feliz.
Só ou acompanhado.
Sim...houve quem tentasse ajudá-lo.
Houve quem se apaixonasse.
Em vão.

Diz ele que sofrimento e a amargura são culpa de outro.
Fora abandonado e ficara assim.
De forma repentina.
Na verdade, só colhe tudo o que plantou para outras pessoas.

As voltas que a vida dá.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A garotinha do "mais"

Bia leva consigo sua sentença de morte.
Sabe disso.
Mas faz de conta que nada sente.
Melhor.

Assim...aproveita mais os dias restantes por aqui.
Vai mais ao parquinho.
Desce mais no escorregador.
Balança mais na gangorra.
Pinota mais de mureta em mureta.

Também abraça mais.
Beija mais.
Sorri mais.
Lança mais olhares de conforto.

E ainda pergunta mais nomes.
E aponta para mais fotos de crachá.
E agarra mais mãos rumo ao desconhecido.
E pouco chora.

Na verdade, Bia leva consigo sua sentença de vida:
a alegria.