quinta-feira, 19 de maio de 2011

O cearense-carioca, os cachorros, o gatinho e o horizonte

Aos 51, ele conquistou nada material.
Sequer tem onde morar.
Desfez-se da família e deixou o casebre onde se abrigava por não ter mais como pagar aluguel.
Encontrou refúgio em escombros abandonados.

Vive só.
Num vão sujo e sem reboco, mal vê gente.
Os companheiros são os vira-latas.
Três.
Dois machos e uma fêmea.
E um gatinho recém-nascido cinzento de olho azul.
Todos dóceis a qualquer um.

Mas quem está infeliz ali?
O cearense-carioca pode desconhecer pompas.
Pode não mais saber o que é calor humano.
Contudo, é na possibilidade de armar a rede azul de frente para o mar que ele se mantém na jornada por aqui.

É por causa dela também que reflete.
Sobre si e a cidade.
Mesmo na adversidade, com o mundo insistindo em impor ao homem-faz-tudo a pecha de invisível, Edvar tem esperanças.
As frustrações são quase zero.
Afinal, dá para ver um horizonte inteiro da rede azul.

Perder o vão sujo e sem reboco significaria o fim.
De tudo.
Para ele, os cachorros e o gatinho.

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